O que o campo harmônico organiza

O campo harmônico é um dos fundamentos para quem quer compreender a harmonia. Vejo muitos músicos decorarem acordes isolados sem perceber a relação entre eles. Isso limita tanto a interpretação quanto a criação de um acompanhamento, uma composição ou um arranjo.

Entender essas relações também ajuda a evitar os principais erros ao criar um arranjo para violão.

O assunto interessa ao violonista clássico, ao músico popular, ao compositor, ao arranjador e também a quem toca outro instrumento. A harmonia funciona como o pano de fundo da música: ela organiza o ambiente sobre o qual a melodia se movimenta.

Quando esse pano de fundo está claro, fica mais fácil entender por que um acorde cria repouso, por que outro produz tensão e como uma sequência conduz o ouvido de volta ao ponto de partida.

O que é campo harmônico

Campo harmônico é o conjunto de acordes formados a partir de uma determinada escala. Ele mostra quais acordes pertencem àquele centro tonal e oferece um mapa das relações disponíveis dentro da tonalidade.

No campo harmônico de Dó maior, por exemplo, encontramos acordes como Dm7, Am7, G7 e C7M. Eles não aparecem juntos por acaso: são construídos com as notas da escala de Dó maior e exercem funções diferentes. Para entender o papel de cada um, vale estudar também as funções de tônica, subdominante e dominante.

Aqui, vamos concentrar a atenção no campo harmônico maior: primeiro nas tríades, depois nas tétrades.

Escala, graus e tonalidade

Os acordes de um campo harmônico nascem de uma escala. Cada nota ocupa uma posição chamada grau. A primeira nota é o primeiro grau, a segunda é o segundo grau, e assim seguimos até o sétimo.

Na escala de Dó maior, temos:

  • I: Dó
  • II: Ré
  • III: Mi
  • IV: Fá
  • V: Sol
  • VI: Lá
  • VII: Si

Na escala de Mi maior, a sequência é Mi, Fá sustenido, Sol sustenido, Lá, Si, Dó sustenido e Ré sustenido. O primeiro grau sempre corresponde à tonalidade em questão. Por isso, em Dó maior o primeiro grau é Dó; em Mi maior, é Mi.

Essa numeração não serve apenas para nomear posições. Ela permite reconhecer uma mesma estrutura em tonalidades diferentes.

Como formar as tríades

Para montar o campo harmônico de Dó maior, harmonizamos cada nota da escala por meio do empilhamento de terças. Essa organização sustenta a música tonal ocidental desde o período Barroco.

Começamos pelas tríades, acordes formados por três sons. Sobre cada nota da escala, colocamos uma terça e depois mais uma terça, usando somente notas da própria escala.

No primeiro grau, partimos de Dó. A terça acima é Mi; a terça acima de Mi é Sol. O resultado é Dó, Mi e Sol. Entre Dó e Mi há uma terça maior. Entre Mi e Sol, uma terça menor. Essa combinação forma o acorde de Dó maior: fundamental, terça maior e quinta justa.

Ao repetir o processo em todos os graus, chegamos a estas tríades:

  • I: Dó maior, formado por Dó, Mi e Sol
  • II: Ré menor, formado por Ré, Fá e Lá
  • III: Mi menor, formado por Mi, Sol e Si
  • IV: Fá maior, formado por Fá, Lá e Dó
  • V: Sol maior, formado por Sol, Si e Ré
  • VI: Lá menor, formado por Lá, Dó e Mi
  • VII: Si diminuto, formado por Si, Ré e Fá

As quatro qualidades de tríade

Como trabalhamos com terça maior e terça menor, basta observar a ordem dessas duas possibilidades para reconhecer quatro qualidades de acorde:

  • Maior: terça maior e terça menor, 3M + 3m
  • Menor: terça menor e terça maior, 3m + 3M
  • Diminuto: duas terças menores, 3m + 3m
  • Aumentado: duas terças maiores, 3M + 3M

Na partitura, o empilhamento também fica visível. Se a fundamental está numa linha, as notas seguintes da tríade aparecem nas linhas seguintes. Se ela está num espaço, as outras notas aparecem nos espaços seguintes. Essa disposição ajuda a enxergar as terças antes mesmo de calcular cada intervalo.

Os algarismos romanos localizam os acordes dentro do campo harmônico. Como a escala tem sete notas, o campo harmônico tem sete graus.

A fórmula do campo harmônico maior

Quando aplicamos as qualidades das tríades a todos os graus, encontramos um padrão que se repete em qualquer tonalidade maior:

  • I, IV e V são maiores
  • II, III e VI são menores
  • VII é diminuto

Em Lá maior, a escala é Lá, Si, Dó sustenido, Ré, Mi, Fá sustenido e Sol sustenido. Mantendo o mesmo padrão, o campo harmônico fica assim:

  • I: Lá maior
  • II: Si menor
  • III: Dó sustenido menor
  • IV: Ré maior
  • V: Mi maior
  • VI: Fá sustenido menor
  • VII: Sol sustenido diminuto

Um bom exercício de fixação é escrever o campo harmônico maior de todas as tonalidades no caderno. Além de praticar a formação dos acordes, você cria um material de consulta para usar ao analisar uma peça ou preparar um arranjo.

Como formar as tétrades

Depois das tríades, acrescentamos mais uma terça ao empilhamento. Assim surgem as tétrades, acordes formados por quatro sons: fundamental, terça, quinta e sétima.

O nome sétima vem do intervalo entre a fundamental e a quarta nota do acorde. Si é a sétima de Dó; Mi é a sétima de Fá; Lá é a sétima de Si.

Na cifra, um acorde maior costuma aparecer sem indicação de qualidade: B representa Si maior. Para um acorde menor, acrescentamos um m, como em Dm. Quando entra a sétima, precisamos indicar também a qualidade desse intervalo:

  • Acorde maior com sétima maior: X7M
  • Acorde menor com sétima menor: Xm7
  • Acorde maior com sétima menor: X7
  • Acorde menor com sétima maior: Xm7M
  • Acorde meio diminuto: Xm7(b5)

O acorde aumentado também pode aparecer como C(#5) ou C5+, embora não faça parte do campo harmônico maior.

O padrão das tétrades no campo harmônico maior é:

  • I: X7M
  • II: Xm7
  • III: Xm7
  • IV: X7M
  • V: X7
  • VI: Xm7
  • VII: Xm7(b5)

Aplicando a fórmula a Lá bemol maior, temos Ab7M, Bbm7, Cm7, Db7M, Eb7, Fm7 e Gm7(b5). A lógica é a mesma usada nas tríades: mudam as notas, mas a relação entre os graus permanece.

Leve o campo harmônico para o violão

Não encerre o estudo no papel. Toque os acordes de uma mesma tonalidade e escute com atenção cada nota, cada tensão e cada sensação de repouso. Compare as tríades com as tétrades e perceba como a sétima altera a cor do acorde.

Depois, experimente pequenas sequências, mude a ordem dos graus e observe quais movimentos soam conclusivos ou deixam a frase em aberto. Essa escuta transforma a fórmula em recurso musical.

Se você quiser aprofundar esse raciocínio e aplicá-lo à criação no instrumento, conheça o curso de Arranjo e Composição para violão.